“Mas você vai com essa roupa curta?”, “mulher no volante, perigo constante”, “lugar de mulher é na cozinha”. Frases como essas são naturalizadas no cotidiano, repetidas como brincadeiras ou conselhos, mas contribuem para a manutenção da violência de gênero. Nesse contexto, a Oficina de Enfrentamento à Violência de Gênero, atividade que integra o Programa de Ações Afirmativas do curso de Direito da FAESA há 10 anos, se consolida como um espaço de sensibilização, capacitação e reflexão sobre o tema.
A iniciativa tem como proposta formar cidadãos comprometidos com a igualdade, a liberdade e a dignidade da pessoa humana. A partir dessa perspectiva, a oficina surgiu como uma resposta às demandas identificadas no Núcleo de Prática Jurídica (NPJ), especialmente no atendimento a mulheres em situação de violência, o que evidenciou a necessidade de uma formação mais específica para os estudantes.
“No NPJ, atendemos muitas mulheres vítimas de violência e, por isso, surgiu a necessidade de aprimorar nosso atendimento e ofertar uma capacitação específica para nossos estudantes. Recebemos muitos depoimentos que atestam a importância do trabalho realizado, depoimentos de vítimas que se sentiram acolhidas e prontas para ressignificarem sua história, até mesmo de alunos e alunas sensíveis às causas de minorias, comprometidos com a mudança de cultura”, afirma a coordenadora do curso de Direito, Sayuri Otoni.
Ao longo dos encontros, a oficina propõe uma abordagem que vai além do campo jurídico. As atividades buscam ampliar a compreensão sobre a violência de gênero a partir de aspectos sociais, culturais e comportamentais, estimulando uma escuta mais atenta e a identificação de sinais que muitas vezes passam despercebidos.
Em um cenário em que casos de violência contra mulheres continuam acontecendo diariamente, a proposta da oficina também se conecta à necessidade de um atendimento mais qualificado e sensível, capaz de reconhecer situações de abuso e contribuir para encaminhamentos adequados.
Dentro desse processo, a professora de Direito Magali Gláucia, que atua na condução da oficina, destaca que um dos principais impactos da atividade está na forma como as participantes passam a se perceber. Para ela, a partir de discussões como essa, muitas mulheres começam a questionar papéis socialmente impostos, reconhecendo que determinadas posições não são naturais e que podem ser transformadas. Esse movimento favorece o rompimento de ciclos de violência e fortalece a autonomia, não apenas no âmbito individual, mas também nos contextos familiares e sociais em que estão inseridas.
Além disso, a oficina também envolve a participação masculina, ampliando o debate e incentivando a construção de novas posturas. “Os homens também fazem parte da oficina, eles passam a ser o que a gente compreende de aliados nessa luta contra a violência, então eles se aliam a nós no sentido de percepção do que é violência. A gente começa a oficina falando sobre frases machistas, então verbalizar ou ler essas frases pela primeira vez escrita a próprio punho por eles ou pelos próprios colegas traz essa responsabilidade”, explica Magali.
Além disso, a realização da atividade acontece em um momento simbólico para o enfrentamento à violência contra a mulher. Em 2026, a Lei Maria da Penha completa 20 anos, reforçando a importância de ações como essa, que vão além da legislação e que atuem também na formação e na conscientização.



