Alunas de #JornalismoFAESA mergulham em projeto do #DireitoFAESA e produzem livro-reportagem como TCC


Publicado em: 14 de novembro de 2018

Da parceria entre o Jornalismo e o Direito podem nascer incríveis histórias. Para as ex-alunas do curso de Jornalismo da FAESA Karol Melo e Thays Franco, a inspiração veio de um projeto que une a justiça com um importante e nobre propósito social: estimular o reconhecimento de paternidade de crianças do município de Vitória que não possuem o nome do pai em seus registros de nascimento.

Trata-se do projeto “Meu Pai é Legal”, uma parceria da Coordenadoria da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) com o curso de Direito da FAESA. Em vigor desde 2012, a iniciativa conta com a participação voluntária de professores e alunos e é voltada para crianças e adolescentes em idade escolar ou mesmo adultos que não possuem paternidade estabelecida no registro de nascimento, independente da situação financeira, social ou cultural. O processo inclui a pesquisa de casos de crianças sem registro paterno em escolas públicas municipais, a realização de entrevistas com as mães para obter os dados do suposto pai e a realização de audiências no Núcleo de Prática Jurídica da FAESA, em busca do reconhecimento voluntário da paternidade e posterior reaproximação da criança com o pai.

Foi justamente a possibilidade de conhecer tantos contextos e perfis envolvidos nessa demanda social que encantou as alunas Karol e Thays, quando desenvolveram um trabalho de assessoria de imprensa para o projeto, em uma disciplina do curso de Jornalismo. Enxergando a possibilidade de aprendizado proporcionada pelo projeto, as estudantes decidiram produzir como trabalho de conclusão de curso um livro-reportagem abordando histórias de vida de algumas famílias que passaram pelo projeto. “Durante todo o processo, nos envolvemos muito ativamente na construção de todas as etapas, desde a captação das histórias. Selecionamos dez entre cem casos, incluindo diferentes situações como casos prisionais e de adoção unilateral. Acabamos percebendo com isso que o projeto é bem amplo”, relembra Karol.

Para desenvolver as reportagens, a aluna destaca que foi necessário estudar os perfis psicológicos de crianças que vivem sem a presença paterna, considerando seus contextos culturais e de convivência, além de questões de identidade e pertencimento “que ainda precisam ser muito discutidos para contribuir na melhoria da qualidade de vida dessas crianças, que em muitos casos se encontram em situação de risco social”. Karol e Thays conheceram as histórias de perto: foram até as casas e conversaram com cada um por meio de entrevistas realizadas olho no olho, vivenciando de alguma forma a realidade em que vivem. Conforme relata Karol, “a experiência possibilitou ter contato com histórias de pais em situação prisional e famílias que não são consideradas tradicionais, mas possuem um lar cheio de amor e carinho”.

Lições para o curso e para a vida

Para as estudantes de jornalismo, a imersão no projeto do curso de Direito trouxe lições para a vida, além do aprendizado técnico sobre a realização de um livro-reportagem e a importância de compartilhar tais histórias. “Ainda é uma experiência incrível saber que deu tudo certo e valeu a pena, porque outras famílias podem ter acesso e se reconhecer nas histórias contadas”, analisa Karol.

Já para os alunos do curso de Direito, o contato com o “Meu Pai é Legal” traz uma bagagem de desafios e conhecimentos que marca a trajetória acadêmica e prepara para a atuação profissional. Para o professor Flávio Barroca, do curso de Direito da FAESA, “a contribuição para os acadêmicos é muito valiosa, tanto em relação ao ganho intelectual quanto em relação à valorização do indivíduo e à sensibilização voltada para a humanização da justiça”. O projeto incentiva ainda as ideias de mediação, permitindo que os alunos entendam e trabalhem a solução pacífica dos conflitos, e a promoção da cidadania, ao proporcionar o fortalecimento dos aspectos psicológicos e emocionais das crianças atendidas.

Conheça uma história

Ficou interessado em conhecer uma das histórias contidas no trabalho das alunas do curso de Jornalismo? Disponibilizamos abaixo um dos textos produzidos, de uma história tocante que se destacou para Karol e Thays.

DOIS PAIS PARA UM FILHO*

Há quem diga que ser mãe solteira é padecer no paraíso em dobro, mas ser pai sozinho não parece ser tão diferente. Dois pais juntaram as forças para seguir com a criação de três crianças, sem a ajuda das mães.

A relação de Jairo e o filho mais velho, Júnior, era de um companheirismo único. Eles trabalhavam durante a semana e passam os fins de semana juntos. O adolescente de 16 anos sabia que Jairo é “a pessoa” que ele pode contar. Contudo essa história vai muito além de um pai presente. No coração de Junior, existia outro amor especial de pai, o de Tiago que junto com Jairo, formam a linha de frente da família nada convencional aos olhos de algumas pessoas, mas com valores fundamentais para a criação dessa grande família.

Moravam todos no mesmo bairro, quando Jairo, com apenas 24 anos, se envolveu apenas uma vez com Raquel, na época, separada de Tiago há pouco tempo. Do curto romance, aconteceu a gravidez de Júnior e, assim que Jairo descobriu que iria ser pai, pensou que tinha cometido uma loucura, pois acreditou que sua vida iria mudar completamente, o que, de fato, mudou anos depois.

Tiago sabia que a criança não era seu filho, mas, mesmo assim, resolveu reatar o casamento com Raquel. Tudo fora combinado com Jairo, para que o registro de nascimento da criança fosse feito em nome do pai biológico. Jairo não foi informado sobre o nascimento do filho e, sem ninguém próximo saber, Júnior foi registrado apenas por Tiago e Raquel. Mas a fisionomia não podia negar, Júnior é filho de Jairo, “um clone”, como eles mesmo diziam e comprovaram pelas fotos dos dois, pai e filho, quando tinham a mesma idade.

Indagado pelos familiares sobre o que iria fazer, Jairo resolveu esperar o tempo passar até que pudesse explicar para Júnior o porquê do nome de seu pai biológico não estar na certidão de nascimento. Entretanto, todos faziam questão de que a criança, mesmo sendo muito pequena e não entendendo muito bem as diferenças que a cercavam, soubesse que tinha dois pais, o biológico e o afetivo. Apesar de o pai biológico não “optar” forçadamente pelo não reconhecimento da paternidade, era diferente de nunca se tornar pai. Já que o amor existiu desde que soube que iria ser pai e, na época, não era um documento que provaria o contrário. Porém, apenas hoje, percebem a falta que o registro faz para a construção social do filho.

Hoje, com 16 anos, Júnior entende completamente quem são seus pais e a importância que eles têm em sua vida. Emocionado, no dia do acolhimento no projeto “Meu Pai é Legal”, pensou que não teria mais o nome do pai afetivo Tiago no documento e, consequentemente, ele pudesse se afastar. Contudo nem passava pela cabeça de Jairo permitir isso, pois sabia que o amor de Tiago por Júnior era muito grande.

Mesmo criança, o contato com o pai biológico nunca foi perdido. Ele sempre recebeu total ajuda, tanto financeira quanto psicológica, principalmente, quando a mãe decidiu ir embora para outra cidade, embarcando em um novo relacionamento. Ela deixou os três filhos sob os cuidados dos pais. Hoje, todos moram com Tiago, sem a presença da mãe.

Quando as crianças eram mais jovens, há dez anos, Jairo e Tiago optaram por essa atitude, pois a mãe das crianças conheceu outro rapaz que morava na Bahia e sumiu sem dar notícias por pouco mais de um mês. Depois de muito insistir em várias ligações, Jairo conseguiu contato com o filho. Júnior contou ao pai os momentos de aflição passados por ele amarrado a uma árvore pelo namorado da mãe. O namorado relatou na época que amarrou a criança, porque ela fez algumas brincadeiras que ele não gostou.

No mesmo instante, Jairo e Tiago partiram para a pequena cidade e lá, vendo as crianças sendo maltratadas, conversaram com Raquel, para que ficasse entendido que o bem das crianças estava acima de qualquer escolha da vida pessoal do pai ou da mãe. Raquel deixou claro que os filhos não iriam segurar suas escolhas e os deixou partir com os pais.

Com isso, já se passaram dez anos e o dia a dia da família ficou bem corrido. Tiago trabalhava durante à noite, arrumava as crianças para a escola e deixava o almoço pronto para Júnior antes de ir descansar. Os fins de semana passavam com Jairo e a atual esposa, que tem por eles um enorme carinho. Além disso, o contato entre os pais era totalmente amigável.

Família

Na literatura, o pai sempre foi visto no lugar da autoridade. Aquele que impõe as leis da casa e, do ponto de vista familiar tradicional, na hierarquia, está acima da mãe. Com essa inversão de papéis na vida de Jairo, Júnior, Tiago e as crianças deixaram o processo horizontal. Para eles isso é bom sob diversos aspectos: do respeito às diferenças, aos gêneros e à democracia. Tudo acontece sem criar uma situação de desigualdade entre os pais que dividem as tarefas e responsabilidades sobre a vida de Junior e os irmãos.

O bairro é o mesmo e as residências são próximas. Jairo tem a total consciência que necessita do suporte de Tiago, afinal formar o caráter de uma criança não é fácil. Nas tarefas, eles se dividem para cuidar um dos filhos do outro, principalmente, quando o assunto é escola e educação. Jairo quer que o filho se torne um adulto responsável e que tome decisões sábias. Júnior estudava pela manhã e, no período da tarde, trabalhava com o pai biológico na oficina de motos junto com outro irmão, filho de Jairo, para que aprendesse o valor do trabalho e a importância de ter uma profissão digna.

Jairo faz parte do conselho da escola onde conheceu o projeto “Meu Pai é Legal” por meio das professoras que já conheciam a história. Para regularizar a situação, que, segundo o Tribunal de Justiça, é inédita, o reconhecimento de Jairo irá acontecer. Inclusive, o processo já está em andamento. No documento, constará o nome dos dois pais: Jairo, o biológico, e Tiago, o afetivo. Para Jairo, o reconhecimento no papel somente será válido a pena se o do pai afetivo não for retirado, pois ele sabe a importância que essa história tem para o filho.

*Os nomes utilizados na reportagem são fictícios


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